Não olhem para cima! Olhem bem para baixo mesmo

Sugiro aos incautos que deem uma conferida antes da leitura abaixo no filme “Não olhe para cima”, 2021, da Netflix, ou mesmo aquele Google da sabedoria instantânea. Claro que os curiosos podem ler do jeito que quiserem ou até mesmo seguir adiante para a próxima divagada digital.

Fiquem bem à vontade, usem aquela lida dinâmica baseada na experiência do usuário que precisa resumir sua timeline de atualizações o mais breve possível para se sentir satisfeito por nada. Depois, completem a lacração com uma frase de efeito enigmática, em alguma rede social e afirmativa. Com aquela positividade tóxica da vitória forjada encontre no LinkedIn o resumo da sua existência: síndrome do impostor

Se antes vinha do Vaticano aquele sopro do Papa Francisco, nos tempos de asteroides das fake News, quem dá a missa é o “mercado” com as recomendações da Black Rock, ou mesmo, aos mais nacionalistas a XP e suas colegas brasileiras. Todos agora querem seu mercado cripto, com seu token fungível da marca Hermes para sobreviverem na próxima pandemia com estilo.

De nada Vale sem Silício, o que estudei ou o que possa sentir, se não puder ter uma métrica compartilhável da minha existência “fit”, baseada na dieta do jejum intermitente, regada a ESG – se bem que ainda não sei qual é a melhor safra e turbinada pelo meu MD Codes de valores. Hoje acordei com vontade de ser solidária e ao usar meu IFOOD logo tratei de oferecer uma gorjeta ao entregador de chinelos. Acho que vou comprar umas Havaianas para deixar aqui do lado, pois bem observei que não era de bom gosto as chinelas do rapaz.

Pedi para Nasdaq um IPO para chamar de meu, mas com este Real da realidade, vou precisar aguardar a próxima Black Friday mesmo. O importante é que na marcha do ano já esqueci as promessas de final de ano e sem carnaval direito, quero mesmo é ter prazo para esquecer quem nunca fui. 

Minha Meta é ficar de boa na virtualidade, construindo minha loja de sonhos. Sim, finalmente encontrei uma meritocracia para chamar de minha e “porrei” no metaverso com minha tenda de sonhos. Sem trocadilhos viralizei. Com um toque futurístico anunciei e viabilizei avatares de CEOs, CFOs e toda sorte dos grandes bilionários admiráveis para os usuários mais modestos do mundo corporativo.

Ali ninguém precisa ser menos que o maior, ou duvidar que pode ser grande sem o menor esforço. Quebrei a banca da humildade. Alguns reclamam dos efeitos colaterais de ser “grande” como não poder ter mais hora para comer, dormir ou compartilhar momentos. Reféns do mental flow constante, sem trégua já não sabem por onde está aquele sorriso que sonhavam do topo da pirâmide. Sem viés cognitivo que lhes dê suporte pediram para acrescentar opções de herdeiros.

Esmagados pelo trabalho, com o sono rendido pela call do fuso contrário, gozando só nas cifras e deitados no estresse, alguns já pediram sua vaga de estagiário novamente. Queriam poder respirar sonhos, sem que tivessem acesso a big data comportamental dos novos tempos. Logo inovei na seção herdeiros, bem nascidos e alienados para não reclamarem que este ano não vão conseguir esquiar quatro vezes no ano devido aos invernos curtos. Mudança climática é coisa de esquerdista, sem uma “business school” que os valide.

Estafados pela vida de sonhos, alguns já abriram o bico pedindo que querem comer e poder transar de verdade. Ainda estou avaliando a nova tenda, toda trabalhada no blockchain do sexo fungível com cada um podendo assegurar como acha melhor fazer seu infinito particular. On demand, um streaming existencial que garanta do depravado ao mais puritano sua inclusão baseada na diversidade, sem misoginia ou racismo que resista. Vou logo tratar de colocar a versão para pessoas acima do peso para não me criticarem por gordofobia, apesar que ainda quero conhecer um magro fóbico raiz, sem Nutella de instagrammer. 

Já olhei para cima e não vi nenhum fim do mundo. Atualizei, meus status para um clube seleto da vacina. Consegui minha dose da indiferença, pois no caminho até minha corretora consegui driblar o mendigo, o pedinte, o faminto, o desempregado e até mesmo meu vizinho. De punho da minha realidade estendida, tropecei num cachorro. Coitadinho, preciso olhar mais para esta questão social do abandono de animais que ocorreu neste Brasil.

Vou olhar bem para baixo, pois com as trends previstas para este ano, preciso só mesmo comprar alimento orgânico e sustentável. Com minha inteligência artificial e meus cliques certeiros logo arrumo a tenda metaverso do brasileiro. Aquela para uma incursão da vida de verdade. Com sensações como andar de ônibus na pandemia, aguentar crítica de todos e ainda ter que disfarçar sua fé no terreiro chamado esperança.

Sem revisão pelos pares, o texto sai ligeiro e no ritmo do pop da nossa Anitta, que consegue resumir bem nosso Brasil, fluente e debochada, rebola para as regras como quem sabe que atualmente o mundo anda sem medida. 

 

Nota: O texto usa o tom da sátira, uma modalidade de humor aqui não para julgar ou criticar quaisquer das marcas aqui citadas, nem cargos ou associações. Com a inspiração do brilhante filme “Não olhe para cima” fiquei instigada a poder colocar no mesmo tom em texto nosso desafio de mantermos nossa humanidade e valores diante de tantos cliques e espirais do mundo digital. Que ninguém se sinta ofendido, ou atacado, pois hoje é melhor enfatizar que todos temos um pouco disso tudo e aí vem a confusão de que também muitos se perdem de si nestas nuvens compartilhadas. Boa sorte, a todos nós! Mais empatia, por favor.

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