Psicodélicos, depressão e a realidade

Nos últimos vinte anos, a psicodelia voltou com maior vigor ao meio científico. Em especial no cenário da psiquiatria e das neurociências, em que estudos clínicos passaram a explorar dentro do modelo científico, se estes agentes químicos que promovem uma alteração no nível de consciência, têm efeito para tratar doenças psiquiátricas. Nomes como a psicobilina (substância presente em alguns cogumelos), ayahuasca (bebida indígena da região amazônica), mescalina (retirada de cactos originários do México), ketamina (anestésico) e o LSD (dietilamida de ácido lisérgico) passaram a estar mais presentes em produções acadêmicas, retiros espirituais e no gosto de usuários recreacionais. Também, alcançaram uma enorme popularidade na mídia e nas redes sociais.

Ayahuasca e depressão

No Brasil, povos originários da região amazônica, trazem em sua tradição ancestral o uso da ayahuasca como uma bebida sagrada, a qual os permite acessar raízes mais profundas com a “natureza e seus espíritos”. Religiões “ayahuasqueiras”  como o Santo Daime, União do Vegetal e Barquinha tiveram suas origens, também, na região norte brasileira no contato com os indígenas, em que o chá com ayahuasca é utilizado como meio para obter o transe religioso durante as cerimônias. A difusão destas religiões no território brasileiro, o surgimento de “festivais” com povos originários apresentando sua cultura e eventos “espirituais” com o uso da ayahuasca acabaram por determinar sua presença em outras regiões do Brasil e do mundo.

Em paralelo, à partir de 2010, houve um aumento significativo de publicações científicas que investigaram qual o efeito da ayahuasca em sintomas de quadros psiquiátricos e marcadores neurobiológicos de sua ação. Dentre os diagnósticos psiquiátricos, a depressão é o que tem mais ensaios clínicos e investigações, buscando delimitar o efeito da ayahuasca nos sintomas depressivos. Se os resultados desta fronteira científica se mostram promissores, maior ainda é o grau de expectativa que envolve as conclusões destas pesquisas.

O mecanismo de ação da ayahuasca está associado em aumentar a disponibilidade de alguns neurotransmissores no cérebro, especialmente a serotonina, com consequente efeitos no processamento das emoções e na conectividade cerebral. Além, de atuar como moderador em sistemas inflamatórios e relacionados ao estresse que estão alterados durante um episódio depressivo. Em estudos que investigaram a frequência das ondas cerebrais – a comunicação elétrica do cérebro – foi evidenciado uma mudança de funcionamento cerebral para ondas que configuram um estado de maior relaxamento.

Relacionado ao comportamento, estes estudos trouxeram uma diminuição na intensidade dos sintomas depressivos, do risco de suicídio, um estado mental de maior bem estar e aceitação para problemas. Os efeitos foram medidos durante a sessão de ingestão de ayahuasca, assim como em longo prazo. Importante, ressaltar que estas medidas tão positivas foram dentro de estudos que selecionaram quem iria participar, ou seja, retiraram pessoas com risco para episódio psicótico. Também, ainda não foi delimitada qual a dose padrão para obter efeitos terapêuticos, nem qual dosagem oferece risco para intoxicação. Portanto, estes dados são para o campo da prática clínica ainda inseguros para se adotar uma prescrição de ayahuasca, ou mesmo, que as pessoas realizem o uso da substância fora de ambientes protegidos

Outro ponto de atenção é que devido ao mecanismo de ação da ayahuasca, a recomendação é a retirada dos antidepressivos, no mínimo, 15 dias antes do seu uso. Em alguns quadros depressivos, esta suspensão pode acarretar um intenso sofrimento emocional. Adicionalmente, ter cuidado com o lugar e a forma deste uso, podem ter alta influência nos resultados desta “viagem psicodélica”, pois ambientes que não ofereçam proteção podem facilitar a presença de experiências negativas e consequências que colocam a pessoa em risco. 

Ciência × Tradição: qual a interação?

No campo da ciência biomédica, a ayahuasca tem se demonstrado uma substância valorosa e com vários laboratórios correndo para decifrar seus efeitos químicos, no comportamento e na melhora de doenças. Nesta corrida, não fica de fora a busca por patentes de farmacêuticas que possam obter o registro e industrializar o principio ativo que confere as propriedades farmacológicas investigadas. Uma expansão da ayahuasca que pode até mesmo ameaçar seus guardiões originários.

Antes de qualquer “tamanho de efeito científico”, há um saber da tradição de povos amazônicos do Brasil, Peru e Colômbia que compartilham nas cerimônias e nos seus saberes um uso espiritual da ayahuasca que os conecta com sua cosmogonia e os seres que habitam seu imaginário. Sabem do saber sabido que habita suas florestas e os enriquecem por experiências que os conectam aos seres de suas terras. 

Sem dúvida, são campos epistemológicos muito distantes, mas que irão precisar desenvolver uma dialética que não exclua os povos ayahusqueiros de sua posse legítima. Assim como, na presença de evidências científicas mais robustas, os benefícios identificados possam chegar a um maior número de pessoas. 

Rio de Janeiro, 25 de janeiro de 2023.

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