Faça chuva ou faça sol: Como o clima pode afetar a saúde mental

O clima é um agente externo que pode influenciar diretamente o nosso humor e até mesmo desencadear quadros psiquiátricos. As oscilações climáticas mexem com o nosso ciclo circadiano, ou seja, os estados mentais e físicos que ocorrem em um período de 24 horas – o “relógio biológico”. Também, as mudanças climáticas determinam mudanças quanto as reações químicas que ocorrem em nosso organismo para manter nosso organismo funcionando, assim como modificam a produção de neurotransmissores (serotonina, dopamina) que controlam nossa comunicação cerebral. Consequentemente podendo influenciar nosso humor.

Em que a temperatura pode influenciar no comportamento?

Portanto, a temperatura externa pode determinar mudanças de comportamento. As evidências já conseguem configurar que maiores temperaturas associadas às ondas de calor podem facilitar maior irritabilidade, cansaço, sensação de impotência para realizar suas atividades, desencadear desregulação emocional, precipitar um desequilíbrio de quadros psiquiátricos e até mesmo um comportamento mais agressivo. Ao clima quente em excesso, as pessoas sentem uma sensação de desconforto que pode aos que são mais suscetíveis apresentarem sintomas de depressão e experimentar mais ansiedade. Nas ondas de calor, a ciência também configura que dias mais quentes são convidativos para socializar, realizar uso de álcool, se envolver em “brigas” e mesmo dados comparativos caracterizam que nos dias mais quentes se tem um maior registro de homicídios e crimes violentos.

Temperatura e traços de personalidade: o que a ciência aponta

Em 2017, uma publicação da Nature reportou dados de um estudo avaliando 5.587 estudantes chineses de diferentes localidades da China, diferenciadas por seu nível de temperatura. Em paralelo, um estudo populacional nos EUA com 1.660.638 indivíduos, de diferentes níveis educacional buscou avaliar diferenças de personalidades relacionadas aos mesmos dados de temperatura avaliados no grupo Chinês. Os resultados para análise de perfis de personalidade demonstraram que num clima mais ameno próximo aos 22 graus, as pessoas experimentam um agrupamento de personalidade que busca novidades e aberta para novas experiências. Enquanto, nas localidades de clima mais frio, as pessoas tem um agrupamento de personalidade mais propensa a terem uma maior estabilidade emocional e buscarem laços afetivos mais próximos. De certa forma, como se “precisassem de regular sua temperatura pela presença de outras pessoas”. Configuraram que em uma temperatura média de 22 graus, devido ser próxima da temperatura para manter nosso funcionamento de forma mais fisiológica estaria relacionado com um maior equilíbrio e estabilidade de comportamento.

Mudanças de comportamento × Desastres naturais

Os dados científicos configuram mudanças de comportamento que também são associadas aos desastres naturais, ou seja, mudanças climáticas de forma abrupta, em curto ou longo prazo que irão desencadear respostas emocionais distintas. Quando se tem um desastre natural de grande dimensão como as enchentes recordes que ocorreram em Manaus em junho deste ano, ou as queimadas do Pantanal de 2020, os quais são abruptos, podem aumentar nas populações que foram afetadas com perda de moradia, mudanças de suas vizinhanças, queda de renda, insegurança alimentar determinam um aumento do sofrimento emocional que poderá atingir níveis de um quadro de depressão, ansiedade, insônia e outros quadros de adoecimento emocional. Enquanto, eventos de duração mais prolongada como a seca do Cerrado por se prolongarem por meses poderá causar desesperança, perda de sentido na vida, sentimentos de tristeza, angústia e emoções relacionadas a impotência mediante a ausência de chuva para pessoas que sentem sua subsistência ou fonte de renda ameaçadas. Alguns estudos da Austrália e EUA, assim como um estudo brasileiro investigando algumas cidades que compõe o Semi Árido brasileiro apontaram que pequenos proprietários rurais estariam mais suscetíveis ao adoecimento emocional quando ocorrem secas prolongadas, e mesmo ocorrendo um maior registro de suicídios nestes períodos.

Existe associação entre doenças psiquiátricas e mudanças climáticas?

Frente ao agravamento das mudanças climáticas, em que as temperaturas alcançam extremos de frio e calor, as condições psiquiátricas causadas pelo clima despertam mais atenção dos profissionais de saúde mental. Ainda acrescentadas por ameaças climáticas como possibilidade de áreas a serem submersas com o aumento do nível do mar, ondas de calor mais intensas, secas mais drásticas, desmatamento com ameaça de determinados biomas, em estas mudanças climáticas ameaçam principalmente populações mais pobres, com menor escolaridade, que por muitas vezes terão um impacto econômico negativo drástico em suas vidas. De tal forma, a literatura científica em saúde mental tem elencado que estas mudanças climáticas já deixaram o contexto do ativismo ambientalista para uma necessidade de prevenção quanto ao adoecimento emocional potencializado com estas mudanças climáticas.

E na rotina como podemos perceber estas variações emocionais?

Muitos percebem na própria pele estas mudanças de humor que os “tira” da zona que se sentem mais confortáveis, como a tradicional brincadeira brasileira de que “cariocas não gostam de chuva” e os paulistas são mais adaptados a sua terra da garoa, ou mesmo, com um tempo mais fechado e com menor luminosidade. Quando as intempéries climáticas mudam muito a rotina das pessoas e seu acesso ao que as proporcionam bem estar permanece por um tempo prolongado,  isto pode ser um fator de risco para os mais suscetíveis se sentirem menos motivados, mais tristes, ou mesmo desistirem de sair da própria casa. Alguns chegam a perder o prazer e ficarem menos produtivos, portanto, podendo ser um fator precipitador ou de manutenção para quadros psiquiátricos, em especial a depressão.

No entanto, a ciência psiquiátrica ainda está incipiente quanto a evolução destes quadros que são mais influenciados por mudanças climáticas, até mesmo pela complexidade que envolve separar este fator clima de forma independente como determinante para o adoecimento emocional. Os sistemas psiquiátricos classificatórios mais divulgados como o DSM-5 e o CID – 10, assim como o CID-11 a ser lançado em 2022, não preveem um diagnóstico psiquiátrico que agrupe sintomas emocionais influenciado por questões climáticas.

COP-26 × Sustentabilidade emocional

De tal forma, mediante uma história recente marcada por uma pandemia disruptiva e toda sorte de mudanças sociais decorrentes deste contexto, nosso limite humano ficou escancarado. Neste cenário, tivemos uma conferência climática mundial, a COP-26 com um documento final vago e sem propostas muito ousadas para mudanças do mercado de carbono, ou mesmo manter a meta de não ultrapassarmos o aumento 1,5 grau nos próximos 10 anos. Houve uma euforia aplacada pela política e seus imperativos de atender aos seus mercados.

Como aplacar nossa angústia climática?

Uma forma de cuidar destas alterações emocionais mediadas pelo clima e suas variações é começar a não as subestimar e também não achar que somos incapazes de contribuir. Faz parte da prevenção de uma eco ansiedade, eco depressão, eco culpa e da solostalgia – sofrimento psíquico intenso decorrente das mudanças do clima – poder sentir que não está tudo fora do seu alcance. Precisamos abrir este dialogo e aprofundar nosso conhecimento da nossa casa. Até o momento a Terra mesmo, neste país tropical e que nos convida a ocuparmos de forma mais assertiva e menos superficial esta pauta fundamental. Pergunte-se sempre: O que posso fazer hoje para um melhor futuro coletivo?

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