Home office e a saúde mental nas empresas

Como grandes corporações podem ajudar no bem-estar de seus funcionários

A pandemia de Covid-19 modificou as relações de trabalho de forma avassaladora. Devido à quarentena, a maioria das empresas foi obrigada a instituir o home office. Nove meses depois, a flexibilização gerou, em alguns casos, um modelo híbrido. Em outros, porém, prédios e salas foram totalmente desocupados e, o que até então era provisório, passou a ser definitivo. Mas como essas transformações estão sendo vividas hoje e serão internalizadas a longo prazo por funcionários e executivos? Afinal, a forma de se relacionar profissionalmente está mudando.

Na prática, existem pontos positivos e negativos, mas eles variam de acordo com a personalidade de cada colaborador, assim como do perfil da corporação. Para quem é disciplinado, uma das vantagens de ficar em casa é ter um controle maior sobre sua rotina. No outro extremo, em alguns lares, a junção dos cuidados dos filhos somado a ajuda-los no ensino a distância determina um maior obstáculo para conseguir estar no trabalho dentro da própria casa.  E quem mora longe do escritório, por exemplo, deixa de perder tempo com deslocamento, mas perde a oportunidade de refletir ou divagar pelo caminho.

Onde fica minha home quando saio do meu office?

Algumas pessoas, no entanto, não conseguem se adaptar porque não se sentem estimuladas. Tenho escutado de muitos pacientes que às vezes as coisas demoram mais para serem resolvidas. Há uma perda de timing. Além disso, existe toda uma resposta corporal que o trabalho presencial proporciona e uma conversa digital não. Muitos ficam sem saber como foi a receptividade de uma proposta ou projeto e se sentem inseguros. Alguns dizem já não suportarem ficar em casa, e que a demanda de trabalho de forma intensa, com múltiplas reuniões os tem deixado atrapalhados e sem conseguir desenvolver seu trabalho com qualidade.

Como, então, equilibrar essa balança? A solução, pode passar por criar um ambiente corporativo de acolhimento. As empresas podem ajudar seus funcionários não negligenciando mudanças de comportamento e demonstrando que querem colaborar com o rendimento deles. O ponto principal é abrir o diálogo para manter a saúde mental com palestras e questionários mais amplos e específicos – feitos de forma estruturada – que possam identificar as dificuldades e necessidades de cada um dentro da perspectiva da corporação. Mediante o que se atravessou no último ano, será imprescindível transformar adversidade em mudança, a tal falada resiliência precisa ser desdobrada também dentro das corporações.

Marketing de saúde mental não resolve o offline

No entanto, dependendo da extensão do problema, uma ajuda profissional, além de muito mais efetiva, é necessária. Atendo vários pacientes que estão em home office exclusivo. Para alguns, tive que ajustar doses de medicamentos e criar estratégias, como encontrar um momento para dar uma volta no quarteirão ou marcar um café com alguém. Tudo para a pessoa não “emburacar”. Acompanhei algumas ações de empresas que foram muito interessantes, como oferecer terapias on-line, palestras e estratégias de suporte para o cuidado emocional. No entanto, foram ações de forma isolada. Ainda se faz necessário uma extensão deste cuidado e “olhar”, entre os executivos, para que possam perceber que o cuidado emocional de seus times pode impactar em um melhor rendimento destes, sem efeitos colaterais emocionais tão graves.

Bons resultados, ótimo faturamento e qual o custo emocional envolvido?

Ao longo deste período de isolamento social houve um posicionamento diferente das empresas no que se refere às necessidades de seus empregados. O que eu vejo são ações midiáticas mais do que propriamente de cuidado. Um ponto para se questionar é que as grandes corporações investem muito dinheiro no entretenimento. É valido, mas será que é isso que os funcionários demandam?

Os executivos organizam várias convenções on-line, com foco em um certo “coaching” aos seus funcionários e com “animadores” de plateia que geram altos gastos, mas será que para além dos gritos uníssonos do momento e bordões de alegria aquilo tem um efeito por meses ou no engajamento real de seus funcionários. Quanto tempo dura o efeito daquela convenção engraçada?  Não existiria alguma ação integrada que fosse mais efetiva para o dia a dia do funcionário? Nada contra a animação que exalta a multidão e a faz vibrar naquele coro de que “aprendi tudo e sou capaz de qualquer coisa”, mas talvez o que mais estamos aprendendo neste cenário desafiador que não há como se ignorar os bastidores.

 

Rio de Janeiro, 15 de janeiro de 2021.

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