De olho no futuro: COVID-19 um vírus da saudade

Embarquei num voo de 13 de março, no dia 26 de junho de 2020. Um longo tempo, um breve instante para perceber uma grande mudança. O caminho para o aeroporto separava aquele olhar para o Rio e o caminho da orla da zona Sul, não como aquele respiro habitual que o Rio nos proporciona, mas um olhar reflexivo que perpassava tudo já na busca por respostas.

Santos Dumont vazio, lojas fechadas, alguns com um caminhar firme buscando os poucos portões de embarque funcionando e alguns com a apreensão de estarem por ali. O embarque nos anunciava uma nova modalidade de ingressar no voo, uma esteira luminosa nos propunha a manter distância e até de certa forma divertia aquele ambiente. Lembrei logo da infância e do jogo de amarelinha!

Embarque de máscara

Todos a postos, portas em automático e o anúncio da tripulação já delineava em caso de pouso forçado “retire sua máscara antes de colocar a máscara de emergência”. Havia um certo silêncio, não era aquele embarque todos falando e disputando seu lugar para bagagem. Tínhamos a bordo, algo mais pesado que nos silenciava e mantinha nossos olhares mais resignados, como se todos participassem de forma coletiva de um mesmo processo interno. Não estávamos ali como sempre tivemos. Era um voo corajoso cercado de medo.

No meu caso, em particular, representava ir encontrar meus pais idosos após fazer todo um preparativo de isolamento e exames. Assim para o trajeto usei todo meu arsenal de escudos anti contágio. Ainda reforcei todos os meus alarmes obsessivos com pitadas do perfeccionismo. Não podia errar. Meu destino incluía um lugar sem leitos de UTI, num cenário que eu poderia ser uma ameaça.

Mesas fechadas

Durante o voo, me surpreendeu o momento “agora vamos iniciar nosso serviço de bordo” e logo veio o carrinho preparado com adaptações para nos servir. A boca seca, olhava aquilo como uma provação para baixar minha guarda, tirar o arsenal e matar a sede. Não sucumbi, mas fiquei na dúvida, se aquilo procedia ou não. Poucos estenderam as mãos para pegar, a maioria olhava com uma vontade freada e voltava para seu tão infinito particular. Preferi engolir seco.

Ao encontrar minha família, nada de abraços e beijos, mas um olhar e palavras. Aqueles cuidados que aprendemos nos últimos meses e o conforto de fazer as coisas como devem ser feitas. Ainda lutando pela perda da liberdade do contato, mas satisfeita com o que estava podendo experimentar de estar próxima. Que alívio! Uma felicidade tão forte que ultrapassava qualquer necessidade de agarrar meus pais como sempre fiz. Era preciso estar grata por os estar encontrando tão bem e felizes.

Amuletos imaginários, manda um direct para Deus

Na roça, mantinham-se mais seguros, mas ao mesmo tempo ao longo dos dias percebi que não estavam tão isolados assim. Contentes faziam alguns dribles ao isolamento, sem perceber que estavam se expondo, ressaltei algumas necessidades, mas eles se entreolhavam com aquela concordância de que vão analisar o que podem abrir mão. Senti na pele, o que angustiava meus amigos “da cidade” e os impasses de respeitar nossos idosos, protege-los, mas sem os lançar numa insuportável masmorra. Engoli seco minha impotência e rezei. A fé pandêmica ativou toda superstição que possa haver quanto a proteção divina.

Ao longo dos dias, com resignação acompanhei a reza dos meus pais, também me confortando com a força deles. Sim, eles seguem aguardando a vacina – como todos aliás, com muita atenção querem entender em que pé estão os testes. Falam da falta dos netos, de os ver e estar com eles, mas aprenderam de forma talentosa se expressarem por vídeo chamada e se satisfazerem com este contato possível. Qual seria o momento e forma para este encontro?

Matemática da emoção

Uma equação que muitos estão fazendo ao seu jeito. Cada família vem sendo desafiada ao encontro “arriscado”, ao risco calculado e até mesmo se confortam na negação de qualquer ameaça. Deixa eu tomar aqui minha ivermectina! Ufa, já estou mais forte para suportar toda esta incerteza. Haja fôlego para se deparar com o abre e fecha mundial!

Na volta, um voo mais leve, sem a pressão de ser um vetor de contaminação. Imagino as pessoas que precisam se confrontar com este impasse diariamente. Aquelas que moram com pessoas de grupos mais vulneráveis, o famoso grupo de risco. Não deve ser fácil para os mais cuidadosos. Aos indiferentes, engatam seu egoísmo e viva a vida. Não se pode parar.

Alô, alô aqui é da terra

A volta para a rotina do distanciamento na cidade, suas limitações e impasses, fazem dos lugares mais bucólicos uma boa pedida. Nas ruas do Rio, as pessoas já caminham mais confiantes, os com máscara estampam sua empatia e os sem máscara…estes seguem sorrindo de forma sórdida. Fico na dúvida se este sorriso, seria uma questão de defesa ou um anúncio de falta de caráter mesmo. Prefiro apostar na defesa! Como alguém que cuida da subjetividade, optei neste olhar por acreditar na possibilidade de não desconsiderar por completo, aos que assumem sua falta de coletividade.

E a saudade? Ela se conforta não com raiva ou negacionismo. A coragem não está em desafiar a realidade, a ciência e tudo mais, para se deleitar nos meus prazeres. Há de se ter ponderação para poder alcançar o que se faz necessário. E aos que duvidam: a Terra segue redonda.

Rio de Janeiro, 08 de julho de 2020.  

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