Compulsão alimentar: gula ou ímpeto?

 

Atualmente, o termo compulsão alimentar se tornou muito comum nas rodas de conversa, mídias sociais e grupos de aplicativos de celular. Algumas pessoas quando exageram na quantidade de comida ou devoram aquele “brigadeiro” acreditam que estão apresentando compulsão alimentar.

Na realidade, isto faz parte de uma rotina alimentar normal. Desta crença o que se deve ficar em alerta é se estes episódios de exagero, em que se come uma grande quantidade de comida até “ficar empanturrado”, ou escolhas alimentares “não saudáveis” ocorrem com a sensação de perda de controle e ocasionam um intenso sofrimento. Importante ressaltar, a percepção de “alimentos proibidos” e uma vigilância intensa quanto a não se permitir compartilhar uma boa mesa, já pode traduzir alguma questão alimentar. Um ponto para reflexão.

Não consegui me controlar

Alguns sentimentos que podem ocorrer são se perceber envergonhado ou culpado por ter “comido um alimento proibido” ou “não conseguido se controlar”. Sentir-se “por baixo” ou triste quanto a forma que se alimenta precisa e deve receber cuidado, já que o comer tem uma representação para além da nutrição física e também proporciona vastas ligações simbólicas.

Quais são os sintomas da compulsão alimentar?

Caracteriza-se por uma sensação de descontrole, em que a pessoa pode ficar com a “cabeça em transe”. Sente-se descontrolada quanto ao ímpeto por comer. E internamente há uma sensação de que é “obrigada” a comer com voracidade para se aliviar do seu mal estar emocional. Geralmente, esta “comilança” (Exemplo: 2 pacotes de biscoito recheado + 1 lata de leite condensado + meio pote de sorvete), dura pouco tempo (minutos e no máximo 2 horas). Na maior parte dos casos, a pessoa se esconde para poder comer sozinha e depois se sente muito triste e culpada por não ter controle sob si mesmo. Estas “orgias” alimentares podem ocorrer com os alimentos considerados “saudáveis” (frutas, verduras, cereais) com os mesmos sentimentos ruins envolvidos.

Quando a compulsão alimentar se transforma no Transtorno de compulsão alimentar?

A maior parte das pessoas em algum momento na vida apresentou algum “descontrole alimentar” por pressões ou problemas em suas rotinas. Estes momentos isolados, como feriados ou festas de final de ano, não a fazem sofrer. Assim de forma isolada podem caracterizar questões do controle de impulso, no entanto, precisa-se dimensionar qual todo o contexto e histórico alimentar de quem está com alterações do comportamento alimentar. Quando o episódio de compulsão alimentar apresenta uma frequência de 1 vez por semana, nos últimos 3 meses, isto configura o Transtorno de compulsão alimentar.

Quais são as causas para o Transtorno de compulsão alimentar?

Alguns fatores associados podem ser identificados, tais como:

 

  • Socioculturais: pressão social por um corpo magro; mídias sociais que propagam a idealização da aparência; valores sociais que objetificam o corpo;
  • Comportamentais: realizar uma dieta; ter familiares com questões alimentares; perfeccionismo; obesidade na infância;
  • Genéticos: alguns estudos já marcam genes (responsáveis pela produção de alguns neurotransmissores);
  • Neurobiológicos: as mulheres por questões hormonais (níveis de progesterona, estrogênio); fatores de constituição ” cerebral”: sistema de recompensa ( área do cérebro responsável pela modulação do prazer) mais sensível para ter “atração” por comidas hiper palatáveis (doces, fast food, alimentos ultra processados); nível de atenção ” mais focado em comida”.

 

Portanto, a compulsão alimentar é um fenômeno complexo do comportamento. O que determina que a compreensão deste fenômeno precisa ser caracterizada dentro da história de cada pessoa. A intensidade dos sintomas, o nível do sofrimento e frequência dos episódios de compulsão alimentar, determinará a melhor forma de tratamento do Transtorno de compulsão alimentar.

Eu tenho compulsão alimentar! Como cuido disto?

Primeiro você deve entender que hoje já se tem muitos avanços quanto ao tratamento. No cenário ideal este tratamento é realizado de uma forma multidisciplinar, em que se conta principalmente com psiquiatras, psicólogos e nutricionistas. De acordo com o quadro clínico, a equipe pode identificar a necessidade da presença do médico clínico, educador físico e fisioterapeuta.

Os objetivos do tratamento são focados para que se estabeleça uma melhora quanto ao comportamento alimentar e o próprio corpo. Neste caminho poderá ser necessário o uso de medicamentos, ou não. O fundamental é não banalizar algo que causa intenso sofrimento e prejuízo, ou se criar estigma quanto a procurar ajuda.

 

Rio de Janeiro, 19 de junho de 2020.

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