1,2,3: Ação – liga a câmera, desliga o microfone e ajeita o cabelo

Segue abaixo uma crônica que escrevi, com conteúdo mais lúdico quanto ao home office, no intuito de por aí ressoar o que tem provocado a rotina de trabalho em casa. Espero que seja uma leitura reflexiva!

Quando a nossa convivência digital aumentou, de repente fomos impelidos para uma convivência intima com nossos colegas, colaboradores ou pares de todas as sortes e azares.

Lançados nas plataformas diversas, com certa naturalidade ou não, passamos a ser atores do nosso palco. Cada qual dirigindo sua cena, ou abafando aquele aspirador de pó insistente da faxina, ou mesmo corroborando a impressão que todos optaram por reformar suas casas em horda.

Cada qual no seu enquadramento, sorrindo, com o olhar vago, cabisbaixo, reflexivo, cara amassada ou até brigando para que a casa não consuma toda sua internet. Ali no grupo reivindicando sua câmera fechada para que não caia sua transmissão, ou congele e até a já tão esperada: – “Professor, desculpa mais não consegui entender muito bem, a internet tá travando muito hoje”.

Acho que a internet caiu!

Se antes tínhamos o tráfego de carros, agora somos reféns do tráfego de dados e fazemos toda sorte de mandiga e contratos de fibra ótica, rede de cabo e satélite mesmo. Tem-se um certo olhar torto ao colega que trava e faz microfonia; ou seja, estamos virtuais, mas nossos avatares continuam competitivos e de certa forma em alerta para que não sejamos nós o infeliz de fazer um comentário impróprio com o microfone aberto: “ Ciclano, esta aula aqui é um m.., mas preciso dela”! E até com certo humor, nos depararmos com um enquadre inusitado, daquela pessoa que se esqueceu de entrar com sua câmera fechada e estava ainda de pijama (ou mesmo, tomando banho).

No início estes deslizes soavam como um bálsamo de humanidade naquele lugar tão gelado. Muitos tinham no caminho do trabalho, seu respiro da reflexão, seu olhar para cidade ou mesmo um momento de elaborar seus pensamentos e se preparar para aquela jornada de trabalho. Encurtaram-se as distâncias, do quarto ao escritório, tem-se pelo GPS uma estimativa dos minutos de ligar o computador, a conexão no link e plim – deixa eu ajeitar essa cara de quem hoje não dormiu muito bem. Olha como hoje a Martina está radiante, seu olhar está tão vivo, falante e presente; aposto que transou ontem. Toda sexta ela está bem disposta, quando é na segunda geralmente fica com aquela cara de ressaca infinita. Já o Roberto não sossega de viajar; toda semana tem que entubar um cenário de home vacation, alguém precisa dar um toque nele que o momento agora é de home office. Tem semana dele de sunga, com cara de embriaguez sórdida.

Gostei daquele fundo do chefe – tão enigmático!

Assim, vamos viajando nas telas, sem o cafezinho ou aperto de mão. Com saudades de bater numa porta, ou invés de acessar um link. E quando somos convocados a ser protagonista? Momento todo especial, em que ficamos falando para a tela como se nossa apresentação fosse ali solitária e atravessamos – de acordo com a plataforma- uma agonia de olhar para câmera e acreditar que nossos colegas estão ali. Quando se termina aquela aula magna, não houve um olhar trocado, uma palma; mas teve um abençoado que abriu o microfone para não nos deixar no deserto virtual. Aquele silêncio que separa o êxito do exit, deixando até os mais seguros precisando de um afago. Sem plateia da palestra, ou aquela conversinha das dúvidas calorosas, somos lançados num sucesso/fracasso domiciliar. Sem confraternização do happy hour ou cafezinho descobrimos quais são os limites e possibilidades da emoção virtual.

Percebemos que o bastidor e aquecimento para as reuniões, nos amortecem para o que precisamos enfatizar e mesmo que a antessala guarda assuntos mais importantes que a pauta dos infinitos links. Buscando ser objetivos e sintéticos, perdemos a curva da fala e a pontuação que nos ampara na conversa, a presença. Com afagos virtuais de emojis e chats, vibramos sem uma convicção convicta, mas nos entregando sem reserva para um tele trabalho – home office, ensino a distância e tudo mais que o tráfego virtual nos possibilite.

Fecho a câmera, respiro e já volto – saudades do escritório

Talvez queiramos buzinar nas plataformas que conseguimos! Vencemos nossas travas da digitalidade, contudo alguns ainda sentem falta do cheiro do cafezinho anunciando que era hora de pausar. De querer entrar no metrô para viajar por tantos mundos e se perder na multidão para poder quando chegar em casa, saber que tem barulho lá fora e já posso fazer silêncio aqui dentro.

Rio de Janeiro, 28 de setembro de 2020.

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