A obesidade é uma doença clínica crônica, definida pelo impacto funcional do excesso de adiposidade, e não apenas pelo peso corporal. O sofrimento emocional é frequente, mas só se torna principalmente objeto da psiquiatria quando a depressão ou a psicopatologia alimentar passam a organizar o comportamento, a adesão ao tratamento e a trajetória do peso. Tratar obesidade sem considerar esses fatores compromete os resultados em longo prazo.
A obesidade é atualmente definida como uma doença clínica crônica, caracterizada não apenas por excesso de adiposidade, mas pelo impacto funcional, metabólico e psicossocial que esse excesso produz no indivíduo¹. Essa definição desloca o foco exclusivo de métricas antropométricas para uma compreensão mais ampla da doença, incluindo seus efeitos sobre saúde física, mental e qualidade de vida.
Nesse contexto, pessoas com obesidade frequentemente apresentam sofrimento emocional. No entanto, sofrimento emocional não é sinônimo de transtorno mental. Distinguir esses dois níveis é fundamental para evitar tanto a medicalização indevida quanto a negligência de quadros psiquiátricos que exigem tratamento específico¹.
Sofrimento emocional faz parte da obesidade — mas não explica tudo
Viver com obesidade em sociedades marcadas por estigma corporal impõe uma carga emocional significativa. Vergonha, frustração, ansiedade e desânimo são experiências comuns, especialmente após ciclos repetidos de perda e ganho de peso ou após tratamentos intensivos.
Esse sofrimento pode surgir como resposta a:
- experiências reiteradas de fracasso terapêutico;
- abordagens restritivas e punitivas;
- julgamento social e internalização do estigma.
Esse sofrimento, isoladamente, não configura um transtorno mental. Do ponto de vista clínico, trata-se muitas vezes de uma resposta adaptativa a uma condição crônica, sem necessariamente indicar psicopatologia¹.
Quando o sofrimento ultrapassa o limite da adaptação: sinal de alerta
A psiquiatria torna-se necessária quando o sofrimento deixa de ser apenas reativo, ou seja, contextual, e passa a organizar o funcionamento psíquico, comportamental e decisório do indivíduo.
Isso ocorre quando:
- emoções passam a ser reguladas predominantemente pela comida;
- há perda recorrente de controle ao comer;
- comportamentos alimentares disfuncionais persistem apesar das consequências negativas;
- sintomas emocionais tornam-se persistentes, intensos e até mesmo incapacitantes. Existe uma “perda” em se sentir tranquilo na própria vida;
Nesses casos, o sofrimento assume caráter de transtorno mental, com impacto direto sobre adesão terapêutica e evolução do peso²,³.
Nem todo transtorno mental se relaciona com a obesidade da mesma forma
Embora a obesidade esteja associada a maior prevalência de transtornos mentais, essas relações não são homogêneas nem igualmente bidirecionais. Tratar todos os diagnósticos como se operassem sob a mesma lógica causal é um erro clínico frequente.
Alguns quadros se relacionam à obesidade principalmente por vias comportamentais. Outros, no entanto, exercem um papel estruturante e assimétrico sobre a trajetória da doença.
Depressão: mais do que consequência, um fator organizador
Entre os transtornos mentais, a depressão ocupa um lugar central na interface com a obesidade. Evidências clínicas mostram que episódios depressivos frequentemente antecedem o ganho de peso, reorganizando o comportamento alimentar, a motivação e a capacidade de autocuidado²,³.
Na prática clínica, observa-se que:
- muitos pacientes desenvolvem obesidade anos após o início de quadros depressivos;
- a melhora do peso, isoladamente, não resulta em remissão da depressão;
- recaídas depressivas frequentemente antecedem episódios de ganho ou reganho de peso.
Isso caracteriza uma relação assimétrica, em que a depressão exerce maior peso causal do que o inverso². O peso da depressão nos quadros de obesidade precisa ser considerado.
Psicopatologia alimentar e reganho de peso
A psicopatologia alimentar representa um ponto crítico de interseção entre obesidade e saúde mental. Perda de controle ao comer, compulsão alimentar e beliscamento persistente não são apenas hábitos inadequados, mas expressões de desregulação emocional e cognitiva.
Estudos mostram que a presença de psicopatologia alimentar e comorbidades psiquiátricas está associada a maior risco de reganho de peso, inclusive após a cirurgia bariátrica metabólica²,³. Assim como no uso das canetas antiobesidade, o reganho de peso não deve ser interpretado como falha individual, mas como marcador clínico de maior complexidade.
Cirurgia bariátrica e metabólica não elimina o risco psiquiátrico
A cirurgia bariátrica e metabólica é uma ferramenta eficaz no tratamento da obesidade grave, mas não elimina a obesidade como doença crônica, nem resolve automaticamente os fatores psíquicos envolvidos¹–³.
No pós-operatório, transtornos mentais podem persistir ou emergir, e a forma de expressão da psicopatologia alimentar tende a se modificar. A recorrência de peso, nesse contexto, frequentemente reflete sofrimento psíquico não adequadamente identificado ou tratado²,³.
O papel da psiquiatria no tratamento da obesidade.
A psiquiatria não atua para “emagrecer” o paciente. Seu papel é:
- diferenciar sofrimento emocional adaptativo de transtorno mental;
- identificar quando a depressão antecede e organiza o quadro clínico;
- diagnosticar e tratar comorbidades psiquiátricas relevantes;
- manejar psicopatologia alimentar e desregulação emocional;
- favorecer a sustentação do tratamento ao longo do tempo;
O objetivo é reduzir sofrimento psíquico e permitir que intervenções clínicas e metabólicas sejam efetivas e duráveis.
Obesidade exige cuidado contínuo sem julgamento
A obesidade não é uma falha individual.
É uma doença clínica crônica, com determinantes biológicos e psíquicos complexos¹.
Reconhecer os limites entre sofrimento emocional e transtorno mental, e compreender que nem todas as relações são bidirecionais, permite um cuidado mais preciso, ético e eficaz.
Tratar obesidade sem considerar saúde mental é incompleto.
Tratar saúde mental em indivíduos com obesidade sem compreender obesidade e desregulação do comportamento alimentar é ingênuo, ou até mesmo inconsequente.
E tratar peso sem tratar depressão, quando ela está presente, é ineficaz.
Para não esquecer: Na obesidade, nem todo sofrimento é transtorno mental. Mas quando a depressão antecede o ganho de peso ou organiza o comportamento alimentar, a psiquiatria deixa de ser acessória e passa a ser central no tratamento.
Referências
- Rubino F, Cummings DE, Eckel RH, Cohen RV, Wilding JPH, Brown WA, et al. Definition and diagnostic criteria of clinical obesity. Lancet Diabetes Endocrinol. 2025;13(3):221–262. doi:10.1016/S2213-8587(24)00316-4. Available from: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39824205/
- Mauro MFFP, Papelbaum M, Brasil MAA, Carneiro JRI, Coutinho ESF, Coutinho W, Appolinario JC. Is weight regain after bariatric surgery associated with psychiatric comorbidity? A systematic review and meta-analysis. Obes Rev. 2019;20(10):1413–1425. doi:10.1111/obr.12907. Available from: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31322316/
- Mauro MFFP, Papelbaum M, Brasil MAA, Carneiro JRI, Luiz RR, Hiluy JC, Appolinario JC. Mental health and weight regain after bariatric surgery: associations between weight regain and psychiatric and eating-related comorbidities. Arch Endocrinol Metab. 2024;68: e230208. doi:10.20945/2359-4292-2023-0208. Available from: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39420888/




